Meses após desfile em homenagem a Lula colocar evangélicos e a “família tradicional” dentro de latas de conserva, partido lança mobilização religiosa para conquistar esse mesmo segmento nas eleições
Por Gleisson Coutinho
Nos bastidores da política nacional, o PT resolveu intensificar uma estratégia para conquistar justamente um dos segmentos nos quais enfrenta maior resistência: os evangélicos.
Em agosto, o próprio Partido dos Trabalhadores anunciou o lançamento nacional dos Comitês Populares de Luta dos Segmentos Religiosos, iniciativa articulada pelo Setorial Inter-religioso Nacional do PT e incorporada à mobilização eleitoral pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
E não há necessidade de especular sobre a finalidade política da iniciativa. O próprio PT afirma oficialmente que os comitês pretendem conversar com pessoas de fé sobre “o projeto de país que estará em disputa nas eleições de 2026”. O calendário inclui movimentos específicos como “Evangélicas e Evangélicos com Lula”, lançado em 24 de agosto.
Janja também ganhou protagonismo nessa aproximação. Durante a campanha, a primeira-dama participou de atos direcionados ao segmento religioso, apareceu ao lado de cantor gospel e, segundo informações de bastidores, passou a defender a realização de encontros de Lula com grupos evangélicos.
Até aqui, absolutamente legítimo.
Todo partido tem direito de procurar qualquer segmento da sociedade.
O problema começa quando voltamos apenas seis meses no calendário.
A homenagem a Lula que colocou evangélicos “em conserva”
Em fevereiro de 2026, a Acadêmicos de Niterói estreou no Grupo Especial do Carnaval carioca com um desfile inteiramente dedicado à trajetória política e pessoal de Lula.
O próprio título não deixava dúvidas:
“Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil.”
Em determinado momento, a escola apresentou a ala denominada oficialmente “Neoconservadores em conserva”.
E aqui está um detalhe fundamental: não se trata apenas da interpretação de adversários políticos.
O próprio documento apresentado pela Acadêmicos de Niterói à Liga Independente das Escolas de Samba explicou quem estava sendo representado.
Segundo o roteiro da própria escola, estavam entre os grupos retratados representantes do agronegócio, mulheres de classe alta, defensores da ditadura militar e “grupos religiosos evangélicos”.
Ou seja: os evangélicos estavam expressamente incluídos na concepção da fantasia.
Não é necessário inventar interpretação alguma.
Está escrito no documento que explicou a ala.
A “dita família tradicional”
Existe outro detalhe ainda mais simbólico.
A fantasia consistia em uma lata de conserva.
Na própria descrição apresentada pela escola, a lata fazia referência àquilo que a agremiação chamou de “dita família tradicional”, formada por homem, mulher e filhos.
Sobre a cabeça dos componentes apareciam diferentes personagens utilizados para identificar os grupos classificados como neoconservadores — entre eles, novamente, os religiosos evangélicos.
Portanto, quando cristãos afirmaram que se sentiram ridicularizados, essa reação não surgiu simplesmente de uma montagem de internet ou de uma narrativa inventada durante a campanha eleitoral.
A representação existiu.
A lata existiu.
A referência à família tradicional existiu.
E a identificação explícita dos grupos religiosos evangélicos também existiu.
O debate legítimo é outro: aquilo representava uma crítica política aceitável ou ultrapassava a fronteira para o preconceito religioso?
Muitos brasileiros entenderam que ultrapassou.
OAB-RJ falou em preconceito religioso
A reação não ficou limitada aos políticos bolsonaristas.
A OAB do Rio de Janeiro divulgou nota afirmando que o desfile havia cometido “prática de preconceito religioso dirigido aos cristãos”, citando justamente a ala das latas de conserva.
A Frente Parlamentar Evangélica também divulgou nota de repúdio.
A Frente Parlamentar Católica igualmente reagiu e anunciou que pediria providências.
A repercussão chegou ao Congresso e, posteriormente, a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados aprovou uma Moção de Repúdio ao desfile.
Pode-se concordar ou discordar dessas manifestações.
Mas não se pode dizer que a indignação foi inventada.
Ela existiu e alcançou instituições, parlamentares e entidades representativas.
Até dentro do PT houve incômodo
Talvez a evidência mais significativa venha de dentro do próprio campo petista.
O pastor batista Oliver Costa Goiano, coordenador nacional do núcleo de evangélicos do PT, reconheceu publicamente que houve “excesso” na fantasia.
Ele próprio afirmou ter ficado incomodado com a representação, embora tenha ressaltado que aquela era uma visão da escola de samba e não do Partido dos Trabalhadores.
Essa distinção precisa ser respeitada.
Não existe evidência de que o PT tenha elaborado a fantasia ou determinado que os evangélicos fossem colocados nas latas.
Aliás, segundo informações publicadas posteriormente, integrantes próximos ao próprio governo demonstraram preocupação com a ala antes mesmo do desfile. Pessoas ligadas ao Planalto teriam defendido sua retirada justamente porque perceberam que ela poderia ser interpretada como provocação aos evangélicos. Lula, entretanto, teria decidido não interferir nas escolhas artísticas da escola.
Isso torna o episódio ainda mais interessante politicamente.
O risco havia sido percebido.
Lula estava na Sapucaí e agradeceu pela homenagem
O presidente acompanhou o desfile que contava sua própria história.
Depois da repercussão, Lula declarou ser “muito grato” pela homenagem recebida da Acadêmicos de Niterói.
Ao ser questionado especificamente sobre a polêmica da “família em conserva”, entretanto, afastou qualquer responsabilidade. Disse que não era carnavalesco nem autor do samba-enredo e afirmou que não houve ingerência de sua parte.
E juridicamente essa separação é fundamental.
A responsabilidade pela concepção artística pertence à escola.
Politicamente, porém, a fotografia permanece desconfortável: um desfile dedicado à exaltação do presidente colocou, dentro de sua narrativa, evangélicos e defensores da família tradicional entre os grupos satirizados.
E houve dinheiro público
Existe ainda outro ingrediente nessa história.
A Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 1 milhão da Embratur, empresa pública federal, dentro de um investimento de R$ 12 milhões destinado às 12 escolas do Grupo Especial para promoção internacional do Carnaval.
Portanto, é igualmente necessário fazer a distinção correta: não houve um repasse exclusivo de R$ 1 milhão para financiar a homenagem a Lula. O mesmo valor foi destinado às demais escolas.
Mas também é fato que dinheiro de uma empresa pública federal integrou o financiamento geral do evento em que ocorreu o desfile.
Esse elemento aumentou ainda mais a reação política.
O próprio Planalto percebeu o estrago
Talvez a melhor demonstração da dimensão do episódio tenha vindo do próprio governo.
Segundo a Folha de S.Paulo, o Palácio do Planalto detectou uma ampla repercussão negativa das críticas feitas por evangélicos nas redes sociais.
Aliados de Lula receberam levantamentos mostrando reação negativa ao episódio, e parte do governo ficou alarmada com os possíveis efeitos políticos justamente porque a aproximação com os evangélicos já era considerada estratégica para 2026.
Ou seja, não foram apenas os adversários que perceberam o problema.
O próprio entorno presidencial percebeu.
E chegamos a agosto.
Seis meses depois: “Evangélicas e Evangélicos com Lula”
Agora o PT procura justamente aqueles que, em fevereiro, apareceram dentro das latas no desfile dedicado ao presidente.
Em agosto, o partido lançou uma mobilização religiosa nacional.
O próprio PT informa que os comitês fazem parte da mobilização para as eleições de 2026.
E um dos movimentos recebeu um nome que dificilmente poderia ser mais explícito:
“Evangélicas e Evangélicos com Lula”.
Janja participa ativamente dessa estratégia de aproximação.
E é exatamente aqui que surge o contraste que considero impossível ignorar.
Em fevereiro, evangélicos foram identificados expressamente como integrantes dos “neoconservadores em conserva” em um desfile dedicado a Lula.
Em agosto, tornam-se público prioritário de uma estratégia de mobilização eleitoral para Lula.
São fatos.
Cada leitor pode tirar deles a conclusão que considerar adequada.
Fé não pode virar ferramenta eleitoral
Não existe problema algum em Lula conversar com evangélicos.
Não existe problema em Janja participar de encontros com pastores.
Não existe problema em o PT possuir evangélicos entre seus integrantes.
O problema aparece quando qualquer partido passa a enxergar a fé principalmente pela lente da conveniência eleitoral.
Respeito religioso não deveria depender da proximidade de uma eleição.
Se existe disposição verdadeira para construir uma relação diferente com os evangélicos, ótimo.
Mas confiança não se conquista com jingle gospel, fotografia, comitê ou discurso.
Conquista-se com coerência.
Entre a lata e o comitê
Seis meses separam duas imagens.
Na primeira, uma escola que homenageava Lula colocou evangélicos entre os “neoconservadores em conserva”, utilizando uma fantasia que também ironizava a chamada “família tradicional”.
Na segunda, o PT organiza “Evangélicas e Evangélicos com Lula” e intensifica a aproximação eleitoral com esse mesmo segmento.
Não afirmo que o PT criou aquela fantasia, porque as evidências disponíveis não demonstram isso.
Mas também não aceito que se apague o que efetivamente aconteceu na avenida.
A descrição oficial da escola mencionava os evangélicos. A OAB-RJ falou em preconceito religioso. As frentes Evangélica e Católica reagiram. Até o coordenador dos evangélicos do próprio PT reconheceu excesso. E o Planalto percebeu a repercussão negativa.
Agora, o mesmo segmento ocupa posição estratégica na campanha presidencial.
É justamente por isso que, mais do que discursos de ocasião, a política precisa de coerência.
A lata passou pela avenida em poucos minutos. A imagem, porém, ficou. E nenhum comitê eleitoral consegue apagar sozinho aquilo que milhões de brasileiros viram e interpretaram naquele Carnaval.
