Emiliane Tamara vai morar no Distrito Federal com os filhos após encontro com Celina Leão; governo oferecerá aluguel social, Viva Flor e acompanhamento psicológico
Por Gleisson Coutinho
A jovem Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, resgatada após permanecer cinco dias em cárcere privado em Águas Lindas de Goiás, decidiu deixar o município do Entorno e se mudar para o Distrito Federal. A mudança ocorre por razões de segurança e permitirá que ela tenha acesso a programas de proteção destinados às mulheres vítimas de violência doméstica.
Emiliane se reuniu nesta quarta-feira (26) com a governadora Celina Leão (PP). Durante o encontro, ficou definido que a jovem será atendida por políticas do Governo do Distrito Federal, incluindo aluguel social, Programa Viva Flor e acompanhamento psicológico.
A medida representa uma tentativa de reconstrução da vida da jovem depois de um dos casos mais graves de violência contra a mulher registrados recentemente no Entorno. Além das consequências físicas e emocionais, Emiliane relatou dificuldades financeiras para simplesmente deixar o local onde vivia e buscar um endereço onde pudesse se sentir mais segura com os filhos.
Celina oferece estrutura de proteção do DF
Durante o encontro, Celina afirmou que Emiliane poderá vir residir no Distrito Federal com as crianças e permanecer amparada pela rede de proteção existente na capital.
Segundo a governadora, três frentes serão inicialmente disponibilizadas: uma solução de moradia por meio do aluguel social, inclusão no Viva Flor e acompanhamento psicológico.
O apoio habitacional é particularmente importante porque a falta de condições financeiras para deixar uma residência ou uma determinada cidade pode aumentar a vulnerabilidade de mulheres submetidas a situações de violência.
Já o Viva Flor integra a estratégia de proteção a mulheres em situação de risco e permite acionamento emergencial da segurança pública.
O acompanhamento psicológico também ganha importância diante do trauma sofrido durante os cinco dias em que Emiliane ficou privada de liberdade.
"Hoje eu tenho para onde ir"
Ao falar sobre a mudança, Emiliane explicou que frequentemente ouvia das pessoas que deveria deixar o local onde vivia, mas enfrentava uma questão básica: não possuía condições financeiras para simplesmente sair e começar uma nova vida com os filhos.
Agora, segundo ela, o acolhimento recebido abriu uma nova possibilidade para recomeçar.
A situação demonstra um problema que muitas vezes acompanha casos de violência doméstica. Afastar-se do agressor não depende apenas da vontade da vítima. Moradia, renda, filhos, trabalho, rede familiar e segurança podem determinar se uma mulher possui condições concretas de romper definitivamente um ciclo de violência.
No caso de Emiliane, a transferência para outra unidade da Federação também busca aumentar sua sensação de segurança.
Cinco dias acorrentada em um cativeiro
O caso começou em 17 de agosto. Emiliane estava na região da Morada da Serra e utilizou um mototáxi para ir até uma clínica localizada na Barragem 1, em Águas Lindas.
Câmeras de segurança registraram a jovem deixando o estabelecimento após o atendimento. Segundo as informações da Polícia Militar de Goiás, após sair do local ela teria sido sequestrada pelo ex-companheiro e mantida sedada em um cativeiro.
A investigação aponta que Emiliane permaneceu presa entre 17 e 21 de agosto.
No imóvel onde ela foi localizada, policiais encontraram correntes, cordas e sedativos. A vítima estava presa com algemas, cordas e corrente de ferro, além de usar uma máscara que, segundo a investigação, dificultaria que vizinhos ouvissem seus pedidos de socorro.
Polícia investiga possível premeditação
As investigações passaram a apontar ainda para a possibilidade de o crime ter sido planejado antecipadamente.
Segundo a delegada-chefe da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Águas Lindas, há suspeita de que o investigado tenha alugado uma residência e trocado de veículo antes do sequestro. Tapumes também teriam sido instalados na parte interna do imóvel, dificultando uma possível fuga.
A Polícia Civil investiga se essas providências foram adotadas especificamente para preparar o local onde Emiliane seria mantida.
O ex-companheiro foi localizado depois que investigadores identificaram informações sobre o veículo utilizado. Os dados foram compartilhados com a Polícia Militar, que realizou a abordagem. Ele foi preso e permanece à disposição da Justiça.
As acusações ainda estão sendo investigadas, e caberá ao processo judicial estabelecer eventual responsabilidade criminal.
Pedidos anteriores de proteção também entram no centro do caso
Outro aspecto que ganhou repercussão depois do resgate foi o histórico de pedidos de medidas protetivas.
Segundo informações prestadas pelo Tribunal de Justiça de Goiás, Emiliane obteve uma medida protetiva em dezembro de 2020, com validade de 180 dias. Posteriormente, em 2021, ela manifestou não ter interesse na continuidade daquela medida durante o inquérito existente à época.
Em 2026, a jovem voltou a procurar proteção.
Ela relatou acontecimentos ocorridos entre dezembro de 2025 e março deste ano, incluindo danos em câmera de segurança, explosão de artefatos nas proximidades de sua casa e afrouxamento de parafusos de um veículo.
Naquele momento, segundo o TJGO, não havia elementos objetivos suficientes para atribuir aqueles acontecimentos ao ex-companheiro. O Ministério Público opinou pelo indeferimento e a Justiça negou a medida, deixando aberta a possibilidade de novo pedido diante de fatos novos.
Depois do sequestro e do avanço das investigações, porém, a situação mudou. Nesta segunda-feira (24), a Justiça de Goiás concedeu medidas protetivas a Emiliane.
Investigação passa a reexaminar acontecimentos anteriores
As novas informações obtidas após o cárcere também fizeram a Polícia Civil olhar novamente para episódios anteriores.
Segundo a delegada responsável pelo caso, os elementos reunidos agora levantam a possibilidade de relação entre o investigado e alguns dos acontecimentos relatados anteriormente pela jovem.
Isso não significa que a autoria desses fatos já esteja comprovada. As investigações e perícias ainda deverão esclarecer o que efetivamente ocorreu.
A polícia chegou a recolher amostras de água da residência para exame toxicológico após um dos episódios relatados pela vítima, e o resultado ainda era aguardado quando as novas informações sobre o caso foram divulgadas.
Um recomeço no Distrito Federal
Agora, a prioridade passa a ser também reconstruir a vida da jovem e de seus filhos longe do ambiente em que ocorreram os episódios de violência.
A oferta feita pelo GDF busca atacar justamente alguns dos obstáculos que dificultariam esse recomeço: moradia, proteção e atendimento psicológico.
O caso evidencia que combater a violência doméstica não termina com a prisão do suspeito. Depois do resgate, existe outra etapa igualmente importante: oferecer condições para que a vítima consiga reorganizar sua vida sem precisar retornar a uma situação de vulnerabilidade.
Para Emiliane, a mudança de Águas Lindas para o Distrito Federal representa mais do que uma troca de endereço. Depois de sobreviver a cinco dias de cárcere, a jovem terá agora acesso à rede de proteção do GDF e a uma estrutura destinada a permitir que ela e os filhos recomecem a vida com maior segurança.
