sábado, 22 de agosto de 2026

Eleições 2026: planos econômicos expõem diferenças entre Lula, Flávio Bolsonaro, Zema, Caiado e Renan Santos

Candidatos apresentam caminhos distintos para as contas públicas: propostas passam por investimentos estatais, corte de gastos, privatizações, reforma administrativa, redução de impostos e mudanças no atual arcabouço fiscal

Foto: arte metrópoles


Por Gleisson Coutinho

A pouco mais de um mês do primeiro turno das Eleições 2026, a disputa pela Presidência da República começa a sair do campo das alianças e pesquisas para entrar em uma questão que terá impacto direto na vida dos brasileiros: qual será o rumo da economia do país a partir de 2027?

Os programas apresentados pelos principais candidatos revelam diferenças importantes sobre o tamanho do Estado, controle das despesas públicas, investimentos, impostos, privatizações, programas sociais e trajetória da dívida brasileira.

Levantamento publicado pelo Metrópoles neste sábado (22) analisou as propostas econômicas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão). Os documentos mostram que, embora responsabilidade fiscal e crescimento econômico apareçam de diferentes maneiras nas campanhas, os caminhos propostos para alcançar esses objetivos são bastante distintos. 


Lula aposta em investimento público e manutenção do arcabouço fiscal

O presidente Lula, candidato à reeleição, apresenta uma estratégia baseada na continuidade do atual arcabouço fiscal, combinada com investimentos públicos e privados para estimular o crescimento econômico.

O programa mantém como uma das principais ferramentas o Novo PAC, direcionando investimentos para infraestrutura logística e urbana, habitação, saneamento e energia.

Outro eixo é a Nova Indústria Brasil, política destinada à reindustrialização e ao incentivo a áreas consideradas estratégicas, incluindo tecnologia, inovação e transição energética. 

Na área social, Lula propõe continuar a política de valorização real do salário mínimo e manter e ampliar programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

A estratégia fiscal prevê também aumento da eficiência dos gastos, revisão de renúncias tributárias, combate à evasão e continuidade da implementação da reforma tributária sobre o consumo.

O programa mantém ainda forte participação dos bancos públicos e empresas estatais no financiamento do desenvolvimento, incluindo oferta de crédito direcionado a empresas e famílias. 

Há ainda uma proposta que deverá ganhar destaque político em 2027: a mudança da escala de trabalho 6×1, com discussão de uma jornada próxima ao modelo 5×2 e redução gradual para 40 horas semanais sem redução salarial. O próprio Metrópoles ressalta, entretanto, que essa medida não integra formalmente o plano de governo apresentado por Lula, embora seja uma aposta política de seu governo. 


Flávio Bolsonaro promete "tesouraço" nas despesas e crescimento de 4% ao ano

O programa econômico de Flávio Bolsonaro (PL) parte de uma lógica diferente.

O candidato coloca a responsabilidade fiscal no centro de sua proposta e defende um amplo ajuste das contas públicas, baseado principalmente em redução das despesas, revisão do tamanho do Estado e diminuição da carga tributária.

O programa prevê um pacote chamado de "tesouraço", com enxugamento da máquina pública e revisão tanto dos gastos obrigatórios quanto dos discricionários dos Três Poderes.

A intenção é recuperar a capacidade de geração de superávits primários e modificar aspectos das regras fiscais atuais. 

O plano também pretende limitar a utilização de recursos do Tesouro para crédito subsidiado e aumentar o controle sobre o impacto de novas despesas no Orçamento.

Um dos objetivos mais ambiciosos está no crescimento econômico.

Flávio estabelece como meta levar o Brasil a um crescimento sustentado de aproximadamente 4% ao ano durante a próxima década, apoiado principalmente no investimento privado, segurança jurídica e aumento da competitividade do agronegócio, indústria e serviços. 

Menos impostos e revisão da reforma tributária

Na área tributária, Flávio Bolsonaro propõe reduzir impostos incidentes sobre produção e consumo.

O programa também prevê revisar a reforma tributária e diminuir a alíquota do novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA).

Existe, entretanto, um ponto ainda sem resposta detalhada no documento analisado: segundo a reportagem, o programa não apresenta uma estimativa consolidada sobre quanto essas reduções representariam em perda de arrecadação nem detalha integralmente as medidas compensatórias. 

Ao mesmo tempo em que propõe redução do Estado em determinadas áreas, o programa prevê novas políticas públicas, como expansão de creches, investimentos em saúde, segurança e infraestrutura e criação de uma rede nacional de cuidados para idosos e pessoas com deficiência.

O desafio será demonstrar como o governo financiaria simultaneamente essas políticas, a redução tributária e o ajuste fiscal proposto.


Zema apresenta programa mais agressivo na redução do Estado

Entre os candidatos analisados, Romeu Zema (Novo) apresenta uma das propostas mais diretamente orientadas à redução da presença do Estado na economia.

O programa prevê um choque fiscal, revisão das despesas obrigatórias, reforma administrativa e redução da estrutura do governo federal, incluindo corte de ministérios e cargos.

Zema também defende uma nova Reforma da Previdência envolvendo União, estados e municípios. 

Outro eixo importante é o combate aos chamados privilégios do funcionalismo público.

O programa pretende enfrentar supersalários, férias estendidas e benefícios que ultrapassem o teto constitucional, além de propor mudanças relacionadas à aposentadoria compulsória utilizada como punição em determinadas carreiras.

Privatizações estão no centro do projeto de Zema

A participação da iniciativa privada também ocupa espaço central no programa.

Zema propõe privatização de empresas estatais, ampliação de concessões e parcerias público-privadas e venda de ativos públicos considerados ociosos.

A lógica apresentada é reduzir a participação direta do Estado na atividade econômica e transferir maior parcela dos investimentos para empresas privadas. 

Na política tributária, a proposta prevê redução gradual dos impostos cobrados das empresas.

O programa pretende inclusive estabelecer metas de redução da carga tributária como instrumento para pressionar o governo a diminuir suas despesas.

Assim, enquanto Lula defende forte utilização de investimentos e instituições públicas como motores do desenvolvimento, Zema caminha em direção praticamente oposta, priorizando privatizações, redução estrutural do Estado e protagonismo do setor privado.


Caiado combina ajuste fiscal com investimentos privados

O programa de Ronaldo Caiado (PSD) também apresenta a responsabilidade fiscal como prioridade, mas procura combiná-la com uma estratégia de crescimento econômico de longo prazo.

Uma das propostas é estabelecer uma estratégia fiscal plurianual para controlar a trajetória da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).

O plano prevê recuperação dos superávits primários e controle do crescimento das despesas obrigatórias. 

Para alcançar esse resultado, Caiado propõe revisar subsídios, benefícios tributários e gastos correntes.

O programa também defende combate aos supersalários e revisão das exceções existentes ao teto constitucional do funcionalismo.

Outra frente envolve mudanças administrativas, incluindo reforma do Estado e maior controle da gestão dos benefícios sociais.


Caiado quer revisar emendas parlamentares

Um ponto politicamente sensível aparece na relação entre Executivo e Congresso.

O programa de Caiado prevê revisão das emendas parlamentares, além de medidas para aumentar a transparência e o controle sobre as despesas públicas. 

O assunto ganhou importância nos últimos anos diante do crescimento da participação das emendas parlamentares no Orçamento federal.

Na área de investimentos, Caiado pretende ampliar concessões e parcerias público-privadas, modernizar a infraestrutura nacional e aumentar a participação do setor privado.

A redução do custo do capital também aparece entre as prioridades econômicas de sua candidatura.


Renan Santos quer substituir atual arcabouço fiscal

Já Renan Santos (Missão) apresenta uma proposta de transformação mais profunda das atuais regras fiscais.

O candidato pretende enviar ao Congresso, como primeiro ato do governo, uma PEC de Transição, substituindo o atual arcabouço fiscal por regras mais rígidas de controle das contas públicas. 

O programa prevê medidas que certamente provocariam forte debate político e social.

Entre elas estão a desindexação de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo e a desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação das receitas.

Também está prevista revisão do abono salarial e redução das renúncias fiscais.

A justificativa é conter o crescimento das despesas obrigatórias e abrir caminho para estabilizar a dívida pública.

Renan também propõe reforma administrativa, combate aos supersalários e revisão das emendas parlamentares. 

Cinco candidatos e diferentes visões sobre o Estado

Quando os programas são colocados lado a lado, ficam mais claras as diferenças entre os projetos apresentados ao eleitor.

Lula aposta principalmente na combinação entre responsabilidade fiscal, investimentos públicos, políticas sociais, bancos públicos e atuação estatal para estimular o crescimento.

Flávio Bolsonaro propõe redução de despesas e impostos, revisão das regras fiscais e maior protagonismo do investimento privado, estabelecendo como objetivo crescimento de 4% ao ano.

Zema apresenta uma agenda de redução mais profunda do tamanho do Estado, com privatizações, reforma administrativa, corte de estruturas públicas e nova reforma previdenciária.

Caiado combina controle fiscal, estabilização da dívida, revisão de benefícios e subsídios com concessões, PPPs e participação privada nos investimentos.

Renan Santos, por sua vez, propõe modificar estruturalmente as regras fiscais e mexer inclusive na vinculação de despesas e benefícios hoje protegidos por mecanismos constitucionais ou legais. 

Economia deve ocupar o centro da campanha presidencial

A discussão tende a ganhar força conforme a eleição se aproxima.

Dívida pública, impostos, emprego, salário, inflação, tamanho do Estado e capacidade de investimento afetam diretamente empresas e famílias e deverão ocupar espaço crescente nos debates presidenciais.

Também será necessário observar não apenas o que cada candidato promete, mas como pretende financiar suas propostas.

Reduzir impostos, ampliar benefícios, aumentar investimentos ou cortar despesas são medidas que produzem consequências diferentes sobre o Orçamento. A viabilidade fiscal dos programas deverá, portanto, ser um dos principais pontos de confronto entre as campanhas.

O primeiro turno está marcado para 4 de outubro de 2026. Caso nenhum candidato à Presidência alcance mais da metade dos votos válidos, haverá segundo turno em 25 de outubro. 

Com pouco mais de um mês até as urnas, os planos apresentados mostram que a escolha do próximo presidente também será uma escolha entre modelos econômicos bastante diferentes para o Brasil a partir de 2027.