quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Celina virou o centro do debate: adversários miram a governadora enquanto ela apresenta quatro meses de gestão

Debate Band - DF, Eleições 2026


Por Gleisson Coutinho

O primeiro debate entre os principais candidatos ao Governo do Distrito Federal deixou uma impressão difícil de ignorar: Celina Leão virou o centro da eleição de 2026.

Durante o encontro promovido pela Band Brasília no último domingo (9), que reuniu Celina Leão, José Roberto Arruda, Kiko Caputo, Leandro Grass, Paula Belmonte e Ricardo Cappelli, boa parte dos confrontos, questionamentos e críticas passou diretamente pela atual governadora.

Em vários momentos, mesmo quando dois adversários tinham a oportunidade de dialogar entre si, o assunto acabava chegando à gestão de Celina.

Parecia haver uma combinação não escrita: cada candidato tinha sua estratégia, sua ideologia e seu discurso, mas quase todos sabiam quem precisavam atingir.

E isso também revela uma realidade eleitoral.

Quem está na frente costuma carregar um alvo nas costas.

Todos contra uma?

Celina assumiu definitivamente o Governo do Distrito Federal em 30 de março de 2026, após deixar a Vice-Governadoria e receber o comando do Executivo. Portanto, chegou ao debate da Band com pouco mais de quatro meses como titular do Palácio do Buriti.

É um período curto para quem recebe a responsabilidade de administrar uma unidade da Federação com mais de 3 milhões de habitantes.

Mesmo assim, no debate, Celina precisou responder como se estivesse há quatro anos governando sozinha.

A crise do BRB foi o principal combustível dos ataques. Saúde, transporte, finanças públicas e outros problemas do Distrito Federal também entraram na discussão. A cobertura do debate registrou que a governadora foi um dos principais alvos dos adversários.

Politicamente, isso é compreensível.

Eleição não é encontro de elogios.

Quem pretende tirar uma governadora do cargo precisa convencer o eleitor de que consegue fazer melhor.

Mas existe outra pergunta que também precisa ser feita:

o que Celina efetivamente fez desde que assumiu o governo?

Quatro meses não são quatro anos

Uma análise equilibrada precisa separar aquilo que pertence ao legado de todo o governo iniciado em 2019 daquilo que pode ser atribuído diretamente às decisões tomadas por Celina depois de assumir definitivamente o Buriti.

Ela não começou o Distrito Federal do zero em 30 de março.

Recebeu obras em andamento, contratos, programas, problemas antigos e, principalmente, uma máquina pública gigantesca funcionando.

Mas também recebeu a responsabilidade de decidir o que continuaria, o que mudaria e quais seriam suas prioridades.

E nesses pouco mais de quatro meses, Celina procurou colocar sua própria marca na administração.

Saúde entrou entre as prioridades

Um exemplo aconteceu no Hospital Materno Infantil de Brasília.

Em julho, Celina anunciou uma ampla reforma estrutural do centro obstétrico do HMIB, unidade estratégica para atendimento de gestantes e recém-nascidos no Distrito Federal.

A saúde talvez seja justamente a área em que a governadora terá de trabalhar mais.

Não adianta esconder os problemas.

Existem reclamações, filas e uma demanda enorme sobre a rede pública.

Mas reconhecer dificuldades não significa ignorar investimentos e intervenções que estão sendo realizados.

Para Celina, a eleição provavelmente será decidida muito mais pela capacidade de apresentar resultados concretos na saúde nos próximos meses do que pelas discussões políticas travadas em estúdio.

Obras chegaram às cidades

A infraestrutura também ganhou espaço na agenda da governadora.

Em São Sebastião, por exemplo, o governo anunciou em julho R$ 7 milhões em investimentos na iluminação pública, dentro de um conjunto de intervenções para a região.

Obras de urbanização, pavimentação, drenagem, iluminação e recuperação de espaços públicos podem parecer pequenas quando observadas do Palácio do Buriti.

Para quem mora nas cidades, não são.

É na rua sem asfalto, no poste sem iluminação, na escola precisando de reforma e no posto de saúde lotado que o cidadão mede a qualidade de um governo.

E Celina parece ter entendido que, em ano eleitoral, governar dentro do gabinete não será suficiente.

Será necessário estar nas regiões administrativas.

Responsabilidade fiscal virou outro desafio

Celina também assumiu em um momento de forte pressão financeira.

A governadora tem defendido redução de despesas, revisão do custeio da máquina e reorganização administrativa. Entre as medidas apresentadas pelo governo está a tentativa de diminuir gastos com imóveis alugados e concentrar órgãos públicos no Centrad.

Essa talvez seja uma das batalhas menos populares para qualquer governante.

Cortar gastos não rende a mesma fotografia de inaugurar uma obra.

Mas, sem equilíbrio fiscal, nenhuma promessa dura muito tempo.

A discussão sobre as contas públicas ainda será certamente explorada pelos adversários durante a campanha.

E Celina terá de demonstrar, com números, que conseguiu organizar aquilo que recebeu.

E existe o elefante chamado BRB

É impossível falar dos primeiros meses de Celina sem mencionar o BRB.

Foi justamente o assunto que dominou grande parte do debate da Band.

A governadora afirma que não participou das decisões que deram origem às operações problemáticas envolvendo o Banco Master e sustenta que assumiu a responsabilidade de buscar uma saída para preservar o Banco de Brasília. Os adversários, por outro lado, procuram vinculá-la politicamente à administração anterior e cobram explicações sobre a situação financeira da instituição.

É uma discussão legítima.

E deverá acompanhar toda a campanha.

Mas existe uma diferença entre perguntar quem criou o problema e perguntar quem está tentando resolvê-lo.

Celina será cobrada pelas duas coisas.

Os adversários falam de Celina porque precisam passar por Celina

Há ainda um componente eleitoral evidente.

Pesquisa divulgada em julho pelo Instituto França mostrou Celina liderando os cenários estimulados para o Governo do Distrito Federal, enquanto levantamento do Paraná Pesquisas também apontou a governadora à frente na disputa.

Isso ajuda a explicar o comportamento observado no debate.

Quem está atrás precisa atacar quem está na frente.

Arruda precisa falar de Celina.

Cappelli precisa falar de Celina.

Grass precisa falar de Celina.

Paula precisa falar de Celina.

Caputo precisa falar de Celina.

No final das contas, quando praticamente todos passam boa parte do debate discutindo a mesma candidata, ocorre um efeito curioso:

mesmo quando Celina não está falando, estão falando dela.

Agora Celina também precisa falar de Celina

Mas existe um limite para a estratégia de apenas responder aos adversários.

A governadora não pode permitir que sua campanha seja construída exclusivamente pelas perguntas dos outros.

Ela terá de apresentar ao eleitor aquilo que realizou desde 30 de março, reconhecer o que ainda não conseguiu resolver e mostrar claramente o que pretende fazer nos próximos quatro anos caso seja eleita.

Porque quatro meses permitem mostrar direção.

Quatro anos exigem resultado.

O debate da Band mostrou que os adversários já escolheram o alvo.

Agora Celina precisa transformar essa condição em vantagem.

Enquanto cinco candidatos discutem como derrotá-la, a governadora tem uma oportunidade diferente:

mostrar por que acredita que deve continuar.

No primeiro debate, todos tinham perguntas para Celina.

A partir de agora, quem dará a resposta definitiva será o eleitor.