quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A inflação virou “sensação”: agora só falta o supermercado aceitar pagamento com pensamento positivo

foto do site pleno news


Por Gleisson Coutinho

O brasileiro pode finalmente ficar tranquilo. Se o dinheiro desaparece antes de o carrinho do supermercado chegar ao caixa, talvez o problema não esteja exatamente nos preços. Pode ser apenas uma questão de… sensação.

A discussão ganhou as redes sociais após comentários da jornalista Miriam Leitão sobre inflação, preços e a percepção dos consumidores. O assunto acabou virando combustível para críticas e muito sarcasmo na internet.

A explicação econômica, vale registrar, tem fundamento: inflação menor não significa que os preços voltaram aos valores antigos. Significa que, em média, eles estão aumentando mais devagar. O problema é explicar isso para quem entra no supermercado e percebe que R$ 100 continuam tendo uma habilidade impressionante de desaparecer.

Segundo dados divulgados nesta semana, o IPCA avançou 0,07% em julho, acumulando 4,44% em 12 meses. Foi a menor inflação para um mês de julho em quatro anos e o índice ficou abaixo do teto da meta, embora tenha vindo acima da expectativa do mercado.

Ou seja: tecnicamente existe uma desaceleração.

No bolso, porém, o consumidor talvez queira consultar uma segunda opinião.

A economia descobriu a “inflação de Schrödinger”

A situação lembra uma versão brasileira do famoso experimento mental: o preço está alto e, ao mesmo tempo, a inflação está desacelerando.

Tudo depende de qual caixa você abre.

No caixa do supermercado, a família olha a nota.

No noticiário econômico, olha-se a variação percentual.

E os dois podem estar corretos.

É justamente aí que nasce a confusão e também a piada.

Se um produto custava R$ 10, passou para R$ 15 e depois sobe para R$ 15,10, a inflação daquele produto desacelerou bastante. Isso não significa, evidentemente, que ele voltou a custar R$ 10.

Mas tente explicar essa maravilha estatística para quem está pagando R$ 15,10.

R$ 100 continuam sofrendo de baixa autoestima

O cidadão entra no supermercado carregando uma nota de R$ 100.

Antigamente ela parecia importante.

Hoje entra quase pedindo desculpas.

Arroz, carne, café, leite, produtos de limpeza, higiene pessoal... basta começar a colocar as coisas no carrinho para descobrir que aquela nota aparentemente robusta pode ter uma existência bastante breve.

A boa notícia é que agora temos uma solução revolucionária: antes de reclamar, o consumidor deve conferir se o problema não é apenas sua percepção econômica.

O carrinho está vazio?

Sensação.

A conta ficou cara?

Percepção.

O salário terminou antes do mês?

Talvez seja pessimismo.

Daqui a pouco teremos supermercado oferecendo na entrada, ao lado dos carrinhos, uma sessão de pensamento positivo.

“Não olhe para o preço. Acredite no IPCA.”

Mas existe uma diferença importante

Deixando o sarcasmo por alguns segundos, Miriam tratava de uma distinção real entre nível de preços e taxa de inflação. Reportagem sobre suas declarações registra justamente a explicação de que a inflação mede a variação dos preços, e não simplesmente o fato de eles estarem altos.

Portanto, transformar a fala em “Miriam disse que os preços não estão altos” seria simplificar demais o que foi explicado.

O que chama atenção é outra coisa: existe uma distância enorme entre a melhora apresentada pelos indicadores e aquilo que parte da população percebe diariamente.

E é justamente nessa distância que a internet faz a festa.

O próprio Banco Central continua tratando a inflação com cautela. A ata do Copom divulgada nesta semana apontou pressões inflacionárias e manteve preocupação com a convergência da inflação para a meta de 3%.

Portanto, aparentemente até o Banco Central ainda não decidiu combater a inflação exclusivamente com terapia motivacional.

O índice melhora; a memória do consumidor permanece

Quando os preços sobem muito durante determinado período e depois passam a aumentar lentamente, ocorre algo curioso.

A inflação cai.

Mas o preço alto fica.

E o consumidor lembra quanto pagava antes.

Essa talvez seja uma das explicações para o contraste entre os indicadores econômicos e a percepção popular.

Não significa que os números estejam errados.

Também não significa que o consumidor esteja imaginando coisas.

Significa simplesmente que desacelerar a inflação não é a mesma coisa que devolver o poder de compra perdido.

Parece óbvio.

Mas, no Brasil, até o óbvio às vezes precisa de economista, gráfico, comentarista, especialista, três entrevistas e uma discussão nas redes sociais para ser descoberto.

No fim, quem dá a última palavra é o caixa

Os indicadores mostram uma inflação mais comportada. Isso é positivo e deve ser reconhecido.

Mas existe outro indicador, muito menos sofisticado, acompanhado diariamente por milhões de brasileiros:

o saldo da conta bancária depois das compras.

Esse não precisa de gráfico.

Nem de economista.

Nem de interpretação.

A máquina simplesmente pergunta:

“Débito ou crédito?”

E nesse momento acaba toda discussão macroeconômica.

Porque inflação pode ser índice, tendência, expectativa, núcleo, projeção ou percepção.

Mas boleto continua sendo boleto.