Por Gleisson Coutinho
O brasileiro pode finalmente ficar tranquilo. Se o dinheiro desaparece antes de o carrinho do supermercado chegar ao caixa, talvez o problema não esteja exatamente nos preços. Pode ser apenas uma questão de… sensação.
A discussão ganhou as redes sociais após comentários da jornalista Miriam Leitão sobre inflação, preços e a percepção dos consumidores. O assunto acabou virando combustível para críticas e muito sarcasmo na internet.
A explicação econômica, vale registrar, tem fundamento: inflação menor não significa que os preços voltaram aos valores antigos. Significa que, em média, eles estão aumentando mais devagar. O problema é explicar isso para quem entra no supermercado e percebe que R$ 100 continuam tendo uma habilidade impressionante de desaparecer.
Segundo dados divulgados nesta semana, o IPCA avançou 0,07% em julho, acumulando 4,44% em 12 meses. Foi a menor inflação para um mês de julho em quatro anos e o índice ficou abaixo do teto da meta, embora tenha vindo acima da expectativa do mercado.
Ou seja: tecnicamente existe uma desaceleração.
No bolso, porém, o consumidor talvez queira consultar uma segunda opinião.
A economia descobriu a “inflação de Schrödinger”
A situação lembra uma versão brasileira do famoso experimento mental: o preço está alto e, ao mesmo tempo, a inflação está desacelerando.
Tudo depende de qual caixa você abre.
No caixa do supermercado, a família olha a nota.
No noticiário econômico, olha-se a variação percentual.
E os dois podem estar corretos.
É justamente aí que nasce a confusão e também a piada.
Se um produto custava R$ 10, passou para R$ 15 e depois sobe para R$ 15,10, a inflação daquele produto desacelerou bastante. Isso não significa, evidentemente, que ele voltou a custar R$ 10.
Mas tente explicar essa maravilha estatística para quem está pagando R$ 15,10.
R$ 100 continuam sofrendo de baixa autoestima
O cidadão entra no supermercado carregando uma nota de R$ 100.
Antigamente ela parecia importante.
Hoje entra quase pedindo desculpas.
Arroz, carne, café, leite, produtos de limpeza, higiene pessoal... basta começar a colocar as coisas no carrinho para descobrir que aquela nota aparentemente robusta pode ter uma existência bastante breve.
A boa notícia é que agora temos uma solução revolucionária: antes de reclamar, o consumidor deve conferir se o problema não é apenas sua percepção econômica.
O carrinho está vazio?
Sensação.
A conta ficou cara?
Percepção.
O salário terminou antes do mês?
Talvez seja pessimismo.
Daqui a pouco teremos supermercado oferecendo na entrada, ao lado dos carrinhos, uma sessão de pensamento positivo.
“Não olhe para o preço. Acredite no IPCA.”
Mas existe uma diferença importante
Deixando o sarcasmo por alguns segundos, Miriam tratava de uma distinção real entre nível de preços e taxa de inflação. Reportagem sobre suas declarações registra justamente a explicação de que a inflação mede a variação dos preços, e não simplesmente o fato de eles estarem altos.
Portanto, transformar a fala em “Miriam disse que os preços não estão altos” seria simplificar demais o que foi explicado.
O que chama atenção é outra coisa: existe uma distância enorme entre a melhora apresentada pelos indicadores e aquilo que parte da população percebe diariamente.
E é justamente nessa distância que a internet faz a festa.
O próprio Banco Central continua tratando a inflação com cautela. A ata do Copom divulgada nesta semana apontou pressões inflacionárias e manteve preocupação com a convergência da inflação para a meta de 3%.
Portanto, aparentemente até o Banco Central ainda não decidiu combater a inflação exclusivamente com terapia motivacional.
O índice melhora; a memória do consumidor permanece
Quando os preços sobem muito durante determinado período e depois passam a aumentar lentamente, ocorre algo curioso.
A inflação cai.
Mas o preço alto fica.
E o consumidor lembra quanto pagava antes.
Essa talvez seja uma das explicações para o contraste entre os indicadores econômicos e a percepção popular.
Não significa que os números estejam errados.
Também não significa que o consumidor esteja imaginando coisas.
Significa simplesmente que desacelerar a inflação não é a mesma coisa que devolver o poder de compra perdido.
Parece óbvio.
Mas, no Brasil, até o óbvio às vezes precisa de economista, gráfico, comentarista, especialista, três entrevistas e uma discussão nas redes sociais para ser descoberto.
No fim, quem dá a última palavra é o caixa
Os indicadores mostram uma inflação mais comportada. Isso é positivo e deve ser reconhecido.
Mas existe outro indicador, muito menos sofisticado, acompanhado diariamente por milhões de brasileiros:
o saldo da conta bancária depois das compras.
Esse não precisa de gráfico.
Nem de economista.
Nem de interpretação.
A máquina simplesmente pergunta:
“Débito ou crédito?”
E nesse momento acaba toda discussão macroeconômica.
Porque inflação pode ser índice, tendência, expectativa, núcleo, projeção ou percepção.
Mas boleto continua sendo boleto.