Perderam a eleição antes da hora: o dia em que o MDB viu sua base ser desmontada
Foram mais de 200 exonerações registradas. Apenas cerca de
45 cargos foram ocupados por novas nomeações e, nesses casos, na maioria das
vezes pela recondução da mesma pessoa para outra função. Ou seja, mais de 150
cargos simplesmente ficaram vagos. O recado do Palácio do Buriti não poderia
ser mais claro, quem apostou no confronto perdeu o espaço que ocupava na
máquina.
Um partido acuado
Nos últimos meses, o MDB-DF assistiu a um progressivo
esvaziamento de sua força política. A saída de Ibaneis Rocha do governo, somada
à crise envolvendo a operação do BRB com o Banco Master, deixou feridas abertas
e um saldo de desgaste que a legenda nunca conseguiu administrar. O que se viu,
na prática, foi um partido dividido, sem discurso unificado e cada vez mais
distante do poder real.
A tentativa de reagir veio na forma de um manifesto político
subscrevido por deputados distritais e lideranças da sigla. O documento foi
apresentado publicamente como uma demonstração de preocupação com os rumos da
administração, mas nos bastidores foi lido como um ato de franco confronto à
governadora Celina Leão.
O resultado não poderia ser pior para os signatários.
O “decretão” como resposta política
O Diário Oficial da última segunda-feira materializou a resposta do governo. As exonerações não foram casuais atingiram diretamente os redutos políticos dos parlamentares que subscreveram o manifesto. Entre os mais atingidos estão nomes como Rafael Prudente, Iolando, Hermeto e Jaqueline Silva.
Todos perderam, em maior ou menor grau, a capilaridade que
tinham na máquina pública. Cargos de confiança que funcionavam como moeda de
troca política, articulação territorial e base eleitoral foram simplesmente
extintos ou transferidos para outras mãos.
A mensagem enviada é a de que oposição dentro da própria
base tem preço. E o preço, neste caso, foi a exoneração em massa de aliados de
segundo e terceiro escalões, muitos deles sem qualquer reposição imediata.
A eleição de 2026 já começou a ser perdida
O efeito prático do “decretão” vai além do presente. Ele
atinge diretamente as candidaturas e as pré-candidaturas dos parlamentares
envolvidos. Sem os cargos de confiança para distribuir, sem a capilaridade na
máquina e sem o apoio explícito do governo, esses nomes perdem a principal
ferramenta de articulação eleitoral. a capacidade de entregar empregos e
favores políticos em troca de votos.
A base política que sustentava esses parlamentares está
sendo literalmente desmontada. Servidores comissionados, que atuavam como cabos
eleitorais informais estão sendo exonerados. Muitos deles, agora, não terão
nenhum incentivo nem material, nem político para continuar trabalhando
pelas candidaturas daqueles que os indicaram.
Perde-se o voto, perde-se a militância, perde-se a rua.
A forma inadequada e suas consequências
A tentativa de parlamentares do MDB de “tomar a cena” ou
“falar o que não devia” como tem circulado nas redes sociais e na imprensa
local revelou-se um tiro no pé. Em vez de demonstrar força, o manifesto expôs
fragilidade, falta de articulação e desconhecimento das novas correlações de
poder.
O governo Celina Leão ainda está em fase de consolidação,
mas já deixou claro que não aceitará tutela política de quem não está disposto
a construir soluções. Governar exige governabilidade, sim, mas também exige
lealdade ou ao menos diálogo. O que se viu na última semana foi o oposto, um
movimento de confronto precoce, mal calculado e que agora cobra seu preço em
forma de cargos vagos e influência perdida.
O que resta ao MDB?
A grande questão agora é, o MDB ainda tem tempo de retroagir e repensar sua estratégia? A resposta é incerta. O partido já não é mais o protagonista de outrora. Sem uma mensagem clara, sem unidade e agora sem a capilaridade na máquina, corre o risco de assistir ao seu próprio apequenamento em tempo real.
A população do Distrito Federal que enfrenta desafios
reais como segurança, saúde, transporte e emprego pouco se importa com as
brigas internas do MDB. O que se vê, do lado de fora, é um partido que prefere
disputar poder a governar.
Se os parlamentares atingidos pelo “decretão” não
compreenderem que o tempo do confronto passou e que a única saída possível é a
reconstrução do diálogo com o governo, suas candidaturas em 2026 estarão comprometidas
antes mesmo de começarem.
E o MDB, que já foi grande, corre o risco de se tornar uma
sombra do que já representou.