quinta-feira, 6 de junho de 2019

600 carros novos para conselho tutelar parado desde 2016

Mais de 600 veículos destinados aos Conselhos Tutelares ficaram parados por anos à espera de regularização

Carros comprados com recursos públicos permaneceram sem uso devido à burocracia, enquanto milhares de conselhos enfrentavam dificuldades para atender crianças e adolescentes

Por Gleisson Coutinho

Uma declaração da então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, chamou a atenção ao revelar que mais de 600 veículos adquiridos pelo Governo Federal para equipar Conselhos Tutelares de todo o país permaneceram parados durante anos em um pátio de concessionária aguardando apenas a conclusão de procedimentos burocráticos para serem entregues aos municípios.

Segundo a ministra, muitos desses automóveis haviam sido comprados ainda em 2016, mas permaneceram sem utilização devido à demora na formalização da documentação necessária entre prefeituras, parlamentares responsáveis pela destinação das emendas e órgãos do governo federal.



Enquanto isso, milhares de Conselhos Tutelares continuavam enfrentando dificuldades para realizar atendimentos, visitas domiciliares, fiscalizações e ações de proteção à infância e à adolescência por falta de veículos em condições adequadas de uso.

A burocracia atrasou a entrega

Durante entrevista concedida na época, Damares Alves classificou a situação como preocupante e afirmou que encontrou centenas de veículos novos simplesmente aguardando a conclusão de processos administrativos.

De acordo com a ministra, alguns automóveis permaneceram tanto tempo sem utilização que passaram a apresentar problemas decorrentes da própria falta de uso. Pneus ressecados, baterias descarregadas, deterioração de componentes e necessidade de manutenção passaram a fazer parte da realidade de veículos que sequer haviam sido entregues aos seus destinatários.

A situação chamou atenção justamente porque os automóveis já estavam pagos com recursos públicos, mas não cumpriam a finalidade para a qual haviam sido adquiridos.

O papel dos Conselhos Tutelares

Criados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os Conselhos Tutelares desempenham uma das funções mais importantes na rede de proteção social brasileira.

São esses órgãos que recebem denúncias envolvendo violência doméstica, abuso sexual, abandono, negligência, exploração infantil, evasão escolar e diversas outras violações de direitos envolvendo crianças e adolescentes.

Os conselheiros também realizam visitas às residências, acompanham famílias em situação de vulnerabilidade, participam de operações conjuntas com outros órgãos públicos e encaminham casos para o Ministério Público, Poder Judiciário, escolas, unidades de saúde e serviços de assistência social.

Para desempenhar todas essas funções, a disponibilidade de um veículo adequado muitas vezes faz toda a diferença.

A importância dos veículos para o atendimento

Em municípios pequenos, médios e até grandes centros urbanos, os conselheiros tutelares frequentemente precisam percorrer longas distâncias diariamente.

Há situações em que o atendimento envolve deslocamentos para áreas rurais, comunidades isoladas ou bairros distantes da sede do conselho.

Sem transporte adequado, muitas ocorrências acabam demorando mais para receber atendimento, comprometendo a rapidez necessária em casos que envolvem risco à integridade física e psicológica de crianças e adolescentes.

Por isso, a entrega de veículos aos Conselhos Tutelares sempre foi considerada uma prioridade dentro das políticas públicas voltadas à proteção da infância.

Recursos públicos sem utilização

O caso levantou um debate importante sobre a eficiência da administração pública.

Mesmo após a destinação dos recursos financeiros, realização da compra dos veículos e conclusão do processo licitatório, centenas de automóveis permaneceram sem qualquer utilidade por causa de entraves burocráticos.

Enquanto isso, diversos municípios continuavam utilizando veículos antigos, alugados ou até mesmo dependendo de carros cedidos por outras secretarias para realizar os atendimentos.

Em algumas localidades, conselheiros chegaram a utilizar veículos próprios para cumprir suas atribuições, situação frequentemente relatada por entidades representativas da categoria.

O impacto para crianças e adolescentes

Quando um Conselho Tutelar não possui estrutura adequada, quem sofre diretamente são as famílias que dependem do atendimento.

Casos de violência doméstica, abandono, exploração infantil e outras situações de risco exigem resposta rápida do poder público.

A ausência de um veículo pode significar atraso no atendimento, dificuldade para realizar diligências e até mesmo limitações para acompanhar crianças em situação de vulnerabilidade.

Por isso, especialistas sempre defenderam que o fortalecimento estrutural dos Conselhos Tutelares é uma das formas mais eficientes de garantir a efetividade dos direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente.

O desafio da gestão pública

O episódio também evidenciou um problema recorrente na administração pública brasileira: a distância entre a aquisição de bens públicos e sua efetiva utilização pela população.

Em muitos casos, obras, equipamentos e veículos permanecem aguardando liberações administrativas, assinatura de documentos, convênios ou simples tramitações burocráticas que poderiam ser resolvidas em prazos muito menores.

Embora os procedimentos legais sejam necessários para garantir transparência e controle dos gastos públicos, especialistas defendem que processos excessivamente demorados acabam comprometendo a eficiência da própria política pública.

A promessa de acelerar as entregas

Na ocasião, Damares Alves afirmou que uma das prioridades do ministério seria justamente destravar a documentação necessária para que os veículos chegassem rapidamente aos municípios.

A proposta era reduzir a burocracia, agilizar os procedimentos administrativos e garantir que os Conselhos Tutelares finalmente recebessem os automóveis adquiridos com recursos federais.

O objetivo era evitar que novos equipamentos permanecessem inutilizados enquanto milhares de crianças e adolescentes aguardavam atendimento em todo o país.

Estrutura fortalece a proteção social

A atuação dos Conselhos Tutelares depende não apenas do trabalho dos conselheiros, mas também da existência de condições mínimas para o exercício das atividades.

Veículos, computadores, acesso à internet, telefones, salas adequadas e equipes de apoio são instrumentos fundamentais para que o órgão cumpra sua missão constitucional.

Sem essa estrutura, o atendimento à população torna-se mais lento e menos eficiente, prejudicando justamente quem mais necessita da atuação do Estado.

Um problema que serve de reflexão

O caso dos mais de 600 veículos parados tornou-se símbolo de como a burocracia pode comprometer políticas públicas importantes.

Enquanto automóveis novos permaneciam estacionados sem qualquer utilização, milhares de Conselhos Tutelares continuavam enfrentando dificuldades para atender crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

A expectativa era de que a regularização documental permitisse acelerar as entregas e garantir que os investimentos públicos finalmente cumprissem sua finalidade social.

Mais do que a entrega de veículos, o episódio reforçou a necessidade de tornar a administração pública mais eficiente, reduzindo entraves burocráticos que impedem recursos públicos de chegarem rapidamente à população.

Fortalecer os Conselhos Tutelares significa fortalecer a rede de proteção à infância, garantindo que crianças e adolescentes tenham seus direitos preservados e recebam atendimento digno sempre que precisarem da atuação do poder público.