quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Crise no STF se aprofunda: Fachin abre procedimento e cobra explicações de Moraes, Mendonça, Gonet e chefe da PF

Presidente do Supremo dá cinco dias úteis para esclarecimentos sobre o caso Master; procedimento alcança desde a atuação da PF até suspeitas de acesso a documento particular e eventual revelação de informação sigilosa

Fachin cobra explicações de Moraes, Mendonça, Gonet e diretor da PF.
(Imagem: Antonio Augusto/STF


Por Gleisson Coutinho
Brasília, 3 de setembro de 2026

O caso Banco Master entrou, nesta quinta-feira (3), em uma fase ainda mais delicada dentro do Supremo Tribunal Federal. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, abriu um procedimento próprio e determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos por escrito no prazo de cinco dias úteis. 

A medida ocorre depois da divulgação de relatório da Polícia Federal contendo mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O material revelou comunicações e referências a autoridades de primeiro escalão do Judiciário, do Ministério Público e da própria Polícia Federal. 

A decisão de Fachin não significa que os quatro tenham sido considerados culpados ou que exista, neste momento, uma conclusão definitiva sobre a ocorrência de crimes. O procedimento busca justamente esclarecer como as investigações foram conduzidas, quais informações foram obtidas e se as regras aplicáveis a autoridades com foro no Supremo foram respeitadas. 

Fachin quer respostas antes de decidir o futuro do caso

O presidente do STF decidiu agir depois de um impasse entre André Mendonça, relator da Petição 16.662, e a Procuradoria-Geral da República.

Mendonça havia sinalizado que a questão deveria ser submetida ao plenário do Supremo. A PGR, comandada por Paulo Gonet, apresentou manifestação defendendo a extinção da petição e sustentando a nulidade de parte da investigação relacionada às mensagens envolvendo autoridades com foro. 

Para Gonet, o aprofundamento das apurações envolvendo Moraes não poderia ter sido determinado diretamente por Mendonça. Segundo a posição apresentada pela PGR, eventual investigação contra um ministro do Supremo deveria ser encaminhada à Presidência da Corte para apreciação pelo plenário. 

Fachin decidiu, então, ouvir os principais envolvidos antes de definir qual caminho institucional será adotado.

Presidente do STF vê fatos que exigem esclarecimento

O despacho é relevante porque Fachin não se limitou a discutir uma questão processual.

Segundo o documento, além da análise de eventuais vícios formais, as informações apresentadas pela Polícia Federal, caso reconhecidas, podem exigir atuação da Presidência do Supremo para preservar as prerrogativas institucionais da Corte. 

Um dia antes, Fachin já havia dado um sinal público da gravidade com que enxergava o episódio.

Ao discursar na quarta-feira (2), afirmou que os fatos exigiam encaminhamento institucional e que seriam adotadas as medidas consideradas necessárias, mas “sem precipitação”. Também ressaltou que a autoridade do cargo não elimina deveres, limites e responsabilidades. 

Agora veio a primeira providência formal.

Fachin quer saber se PF respeitou regra para investigar magistrados

Um dos pontos centrais envolve a própria Polícia Federal.

Fachin quer esclarecer se foram respeitadas as regras da Lei Orgânica da Magistratura quando a investigação passou a alcançar informações relacionadas a integrantes do Supremo.

A questão jurídica é relevante porque, quando surgem indícios envolvendo magistrado com prerrogativa de foro, existem procedimentos específicos para que o material seja encaminhado ao tribunal competente.

A PGR argumenta que esses limites teriam sido ultrapassados na apuração conduzida sob determinação de Mendonça. 

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, portanto, deverá explicar a atuação da corporação.

Fachin questiona possível uso de credenciais institucionais

Há outro ponto especialmente sensível no despacho.

Fachin solicita esclarecimentos sobre eventuais indícios de utilização de credenciais de acesso institucional para consultar documento de natureza estritamente particular. 

O despacho também busca esclarecer a possibilidade de informações submetidas a sigilo judicial terem sido reveladas a pessoa investigada. 

São questionamentos graves.

Mas é importante fazer a distinção jurídica: Fachin está pedindo informações sobre essas hipóteses. O despacho, por si só, não estabelece que o acesso irregular ou o vazamento efetivamente ocorreram nem atribui definitivamente sua autoria a determinada autoridade.

No centro de tudo estão as mensagens de Vorcaro

A origem da crise está no material obtido pela Polícia Federal a partir do celular de Daniel Vorcaro.

Segundo a PF, foram encontradas comunicações com um contato atribuído a Alexandre de Moraes. Parte das mensagens não pôde ser integralmente recuperada porque teriam sido utilizadas imagens de visualização única e textos produzidos previamente em outro aplicativo. 

Em uma das mensagens recuperadas, Vorcaro disse que estava tentando se antecipar aos investigadores.

Em outras comunicações, aparecem referências a “Andrei” e “Paulo”, identificados pelos investigadores como Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Segundo o relatório, Vorcaro buscava que o interlocutor acionasse as duas autoridades diante de medidas que poderiam atingir o Master. 

Até agora, porém, o material divulgado não demonstra que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos por Gonet ou Andrei. Também existem trechos nos quais a própria PF trata a identificação de Moraes como interlocutor como suspeita, e não conclusão definitiva. 

Essa ressalva é fundamental.

Relatório aponta encontros e contratos

A investigação não se restringe às mensagens.

Documentos analisados pela Polícia Federal também fazem referência a encontros entre Vorcaro e Moraes e a contratos discutidos entre o Banco Master e o escritório ligado à esposa do ministro.

Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, mensagens indicam pelo menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes, embora os documentos não comprovem que todas as reuniões mencionadas tenham efetivamente ocorrido. 

O material também contém informações sobre um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, além de outra proposta, de R$ 50 milhões. 

A existência de contratos ou reuniões, isoladamente, não demonstra ilegalidade. O ponto investigativo é compreender o contexto dessas relações diante das mensagens recuperadas e das providências que Vorcaro buscava naquele período.

Moraes também partiu para o confronto com Mendonça

A crise ganhou ainda outro capítulo nesta quinta-feira.

Alexandre de Moraes pediu a Fachin uma investigação contra André Mendonça por suposto abuso de autoridade, acusando o colega de direcionar investigações por motivações pessoais e políticas. Segundo a Folha, Moraes afirmou que ele próprio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, teriam sido atingidos pelas apurações conduzidas por Mendonça. 

A reação mostra que a controvérsia já ultrapassou o Banco Master.

Agora existe uma disputa aberta sobre os limites da atuação de ministros do próprio Supremo em investigações que atingem colegas da Corte.

Gonet questiona investigação; Mendonça quer discussão no plenário

O quadro institucional tornou-se particularmente complexo.

De um lado, André Mendonça considera que o material merece análise colegiada.

De outro, Paulo Gonet sustenta que houve ilegalidade no aprofundamento das investigações e defende a nulidade do relatório nesse ponto. 

Moraes, por sua vez, reage contra a atuação de Mendonça.

E Fachin, como presidente do Supremo, passa a ocupar posição central na tentativa de organizar institucionalmente o conflito.

É por isso que os próximos cinco dias poderão ser decisivos.

Fachin coloca quatro autoridades sob obrigação de explicar os fatos

A providência desta quinta-feira possui peso institucional porque coloca lado a lado quatro personagens que ocupam alguns dos cargos mais importantes da República:

Alexandre de Moraes, ministro do STF;

André Mendonça, ministro do STF e responsável pelo caso Master;

Paulo Gonet, procurador-geral da República;

e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.

Todos deverão apresentar informações à Presidência da Suprema Corte. 

Fachin terá então de decidir o que fazer com essas respostas.

Caso Master se transforma em teste institucional para o Supremo

O que começou como uma investigação sobre suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master passou a produzir questionamentos que alcançam o próprio funcionamento das instituições encarregadas de investigar e julgar.

A pergunta já não é somente o que Daniel Vorcaro fez.

Passou a ser também quem mantinha contato com ele, quais pedidos foram realizados, se algum deles foi atendido, quais informações circularam e se os procedimentos legais foram respeitados quando autoridades com foro apareceram nas investigações.

Nada disso autoriza antecipar culpa.

Mas o próprio presidente do Supremo reconheceu publicamente que os fatos exigem encaminhamento institucional. 

Agora, esse encaminhamento começou.

Fachin abriu o procedimento, estabeleceu prazo de cinco dias úteis e colocou Moraes, Mendonça, Gonet e o chefe da Polícia Federal diante da obrigação formal de explicar suas respectivas atuações no episódio.

O conteúdo dessas respostas e principalmente a decisão que Fachin tomará depois delas poderá definir se o caso permanecerá como uma controvérsia processual ou avançará para uma investigação institucional de consequências muito maiores.